O caminho da vida passa por situações inesperadas e muitas vezes não agradáveis, mas necessárias. Clarice Lispector, em seu conto Obsessão, conta a história de uma garota a se tornar mulher ao comer do fruto do sofrimento e da morte. A garota, em minha fantasia, era loura e usava um vestido branco. Vivia uma vida normal, casada, via os pais aos finais de semana, falava sobre o clima, o tempo. Até conhecer Ele. Ele já era homem, vestia um sobretudo preto e sapatos de couro duro, olheiras negras cobriam seus olhos e frias palavras saiam de seus finos lábios. Ele escuro como a noite, ela bela como o dia. Ele as profundezas e a zona abissal, ela uma viagem à praia. Ele a solitude, ela um canarinho. Por alguma lei obscura da vida, os opostos sempre hão de se unir. A princesa precisa recusar o casaco do cavalheiro e pisar na poça de água. A poça de água era Ele. Sujo, frio, indigno. Desprezível, sem Eros. Ele mostrou à ela o outro lado do espelho, jogou-a nas sombras. Não fez, porém, através de força bruta. Ele seduziu-a. Perséfone comeu a romã vermelha de Hades. Seduziu-a com a possibilidade de uma outra vida. Seduziu-a com a promessa de libertar as lágrimas trancafiadas em seus olhos, deixá-las rolar. Ela permitiu, ela quis, porém não sem culpa, não sem arrependimento, não sem medo. Ele a levou para o vale da morte, para a solidão e para a melancolia. Ele a libertou da vida banal e insípida. Mostrou-a a beleza da Sombra. Ela aprendeu a cair. Aprendeu tão bem que caiu até o fundo mais fundo do reino Dele. E achou um menino. Ele estava com medo. Ele não conseguia realizar-se, ele era estéril. Ela olhou à volta e percebeu que agora sua visão era melhor do que a visão Dele, pois ela via como nenhuma flor crescia ali, nenhuma vida. O menino estava em um trono de criança, nu, mas suas fantasias purpúreas o rodeavam e o enchiam de realeza, de dignidade, de poder. Ela viu. As correntes dela se quebraram, ela chegou às portas de saída do inferno, e de lá levou uma joia dourada, que só brilhava na escuridão. Ouro e Sombra, unidos, criaram uma nova vida para ela. Essa não é uma história de Clarice Lispector.
Gabriela Junges

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