No mangá de Yuka Nagate: “Borboleta Assassina”, cuja protagonista é uma ninja caçadora de ninjas renegados, são narrados vários pequenos contos. Um desses contos é sobre um homem com um trauma de infância. Seu nome era Touya. Quando criança, Touya viu sua mãe ser abusada e morta por um grupo de homens. Ele cresceu e se transformou em um homem que se sentia abandonado e sozinho. Era também sexualmente impotente, tinha libido, mas seu falo se recusava a ficar ereto. Se sentia desprezado pelas mulheres, que muitas vezes zombavam de sua impotência. Ele costumava frequentar o distrito da luz vermelha, em Tóquio, onde ia a casas noturnas se encontrar com prostitutas. Um dia encontrou uma prostituta que amava seu “defeito”, amava sua impotência, pois ele tinha olhos puros e dava-lhe prazer, diferente dos outros clientes que estavam preocupados apenas consigo mesmos. Então Touya, apaixonado, começou a matar os outros clientes da moça, para defendê-la dos abusos; porém, tinha um medo terrível de que ela descobrisse seu lado assassino e o abandonasse. Ele toma a enorme decisão de matá-la também, pois o abandono era uma marca profunda em sua existência e ele não queria correr o risco de ser deixado por ela. Se a matasse, assim pensava ele, ela seria para sempre sua. O complexo ou ferida desse homem aparece muito claramente aqui, atuando e influenciando seus pensamentos e ações. A narrativa do complexo é composta por um agressor assassino e abusador, por um menino indefeso que se sente sozinho quando a mãe é morta, e por uma mulher indefesa que precisa de salvação. A narrativa começa na infância de Touya, e se perpetua durante toda sua vida, com os personagens se mesclando dentro dele e se projetando nas pessoas de fora. O assassino aparece quando Touya mata os homens e planeja matar sua amada, se mesclando com o salvador da mulher e o menino que não quer ser abandonado. O menino abandonado aparece nos olhos puros de Touya, que admira a mulher e depende dela. A mulher indefesa aparece na prostituta, mas não por acaso, pois ela deseja ser salva dos homens que a abusam diariamente em seu trabalho. Touya se identifica com todos esses personagens de uma só vez, por conta do trauma e da ferida que se abriu. A ferida gangrenou e a tragédia foi se perpetuando. Essa é uma característica típica da ferida, ela pode se transformar em um “monstro” quando não tratada, causando sofrimento à própria pessoa e às pessoas a sua volta. Através da ferida causada pelo trauma entra toda espécie de arquétipos ou narrativas coletivas que ”possuem” o indivíduo. No Japão, talvez possamos chamar isso de Mononoke.
Gabriela Junges

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