NOSFERATU: UMA ANÁLISE JUNGUIANA DO MONSTRO E DA VIRGEM

A figura de Orlok é envolta em mistério e complexidade. Orlok não é apenas uma imaginação do autor. Ele é uma das muitas imagens que representam um símbolo maior: o Vampiro. O Vampiro pode retratar questões de poder e sexualidade, assim como o contato com o desejo e os instintos animais, ou seja, as partes mais primitivas, caóticas e escuras de nossa personalidade, mais distantes da luz de nossa consciência e de nossos valores morais. Costumo ver o Vampiro como uma representação da Sombra, mas também do Animus. Para Carl Jung, a sombra é a contraparte do nosso ego e contém nossos aspectos inconscientes e obscuros, as características que tendemos a negar. Se torna sombra tudo aquilo que é rejeitado pela moral, e quanto mais rejeitada for, mais monstruosa e terrível parecerá. 

Já o Animus, segundo Barbara Hannah, representa o Logos e é contraparte do Eros (o feminino ou o amor). Pessoas identificadas com o feminino têm como contraparte inconsciente a figura do animus. O Animus/Logos pode ser entendido como o intelecto e o mental, a racionalidade, sendo responsável pelos pensamentos e opiniões, definições e ordem, idealismos e leis. No entanto, o Animus também pode se tornar excessivamente dominador, racional e, por vezes, opressor. Orlok exerce controle sobre aqueles que seduz, personifica o poder de dominar a vida de suas vítimas, levando-as para um estado de subordinação.

No filme Nosferatu e no romance Drácula, de Bram Stoker, é-nos apresentada a figura de um vampiro sem corporeidade, sem materialidade. Isso nos indica que ele não faz parte do mundo material, não é humano, mas sim um ser arquetípico. Uma figura envolta em sombras, que não se mostra por completo. A ambientação onde o Vampiro vive é localizada em meio a escuridão, Aquela-Que-Não-É-Gerada-Por-Nenhuma-Luz. Ele se mostra uma figura bastante dual, habitando um castelo imponente no topo de uma montanha, afastado do mundo e da sociedade (associado à altura, o Logos), porém ao lado de um precipício, um abismo aquoso e escuro (associado à sombra e ao inconsciente). Pode-se dizer que ele está em cima mas também está em baixo: oculto nas profundezas de nossa psique (sombra), mas representando a transcendência e o poder (logos), um ponto de convergência entre a racionalidade e o instinto. Essa característica pode sinalizar uma função de psicopompo.

Segundo Mircea Eliade, aquilo que está em cima, longe do ser humano e do mundo material, representa a transcendência, um atributo do divino, da “realidade absoluta, da eternidade”, onde se elevam as almas dos mortos. Para atingir a consciência da altura infinita e do “Altíssimo”, em várias religiões é necessário passar por rituais de ascensão, e quem sobe até as alturas deixa de ser humano e passa à condição divina. Aquilo que está embaixo, porém, como as águas e o abismo, simbolizam o “reservatório de todas as possibilidades de existência, precedem toda forma e sustentam toda criação”, é incapaz de se manifestar em uma forma, representando muitas vezes o caos e a morte, mas também o renascimento.

A figura do Vampiro é assustadora, mas irresistivelmente sedutora. Ele é antigo, sábio e mórbido. É oposto a tudo que é fresco, novo, suave e corpóreo. Sua sedução, porém, apesar de ter um potencial destrutivo e castrador para aquelas que se entregam a ele, possui um apelo consolador, na medida em que ele, com suas grande capa negra, se propõe a proteger sua amada. Isto acontece porque o vampiro é um pai-amante, que compreende, que não abandona, que cuida. O Vampiro está em estreito contato com a parte mais vulnerável da mulher, beijando suas feridas e a mandando dormir, com a promessa de que tudo ficará bem. Se a sociedade rejeita, ele acolhe, se o mundo despreza, ele faz juras de amor. 

Percebe-se então que, fazendo par ao Vampiro, está a figura da menina indefesa, da Virgem. É pela ilusão que o Vampiro a seduz, ele age pelas sombras, deleitando-a com prazeres. Ele dialoga, e seu diálogo, o Verbo, é composto das exatas palavras que a Virgem é sedenta, e por isso ela se entrega a ele, entrando em um processo iniciático, mas também de destruição e perda. Ele protege a autenticidade da Virgem das expectativas externas opressoras e normativas. O Vampiro nesse caso pode ser visto como uma espécie de mestre sombrio, que leva a personagem a uma nova consciência, embora a um alto custo emocional e psicológico.

O Vampiro possui duas faces: uma bela e uma monstruosa. A face bela pode ser entendida como o animus, e diz respeito a um ideal estético. Vemos em Nosferatu como a personagem Ellen se deleita em sua melancolia, sonhando com um romance idealizado. Uma das características do vampiro é afastar a Virgem do mundo externo, ele é uma espécie de guardião-tirano, que cria experiências transcendentais que fazem a Virgem julgar o mundo externo como um local inferior ao seu mundo interno. Ellen diz ao marido: ‘’Você nunca me satisfez como Ele”. Em relação à parte monstruosa, sua sede por sangue e seu comportamento predatório refletem uma faceta primitiva que a sociedade rejeita ou reprime. Podemos vê-la não como absolutamente má, mas como tudo que é rejeitado e condenado pela moral vigente, que vê a Sombra como algo feio, absurdo ou inaceitável. Rejeitamos nossa Sombra para mantermos uma imagem socialmente aceitável diante de todos. 

Podemos ver em Nosferatu e em Drácula que, à medida que Orlok se aproxima da civilização (ou seja, da consciência), vai assumindo um corpo, uma forma material, personificando-se, como que ‘’emergindo’’ do inconsciente. Vemos ratos trazendo pestes, vemos violências físicas, vemos gritos e agressões. A sombra renegada estava se aproximando, depois de séculos exilada no inconsciente. Esse movimento simboliza o retorno de partes rejeitadas do inconsciente para a consciência, com toda a sua carga de dor, destruição e caos. A questão que permanece é: como lidar com a Sombra? O relacionamento com ela não é algo ensinável, mas vivencial. O Vampiro como figura mítica e psicológica é um reflexo das partes de nós mesmos que temos medo de enfrentar, mas que, ao integrarmos, nos permitem crescer e transcender as limitações da nossa consciência. 

O medo que ele evoca é, de certa forma, o medo daquilo que não conhecemos em nós mesmos, mas que, se aceitarmos, nos transformará e nos permitirá alcançar um estado de maior autenticidade. Esse contato com o lado animal e primal pode gerar uma grande culpa na Virgem: uma culpa Iniciatória, felix culpa, a culpa que leva ao crescimento, ao renascimento. O sacrifício de Ellen pode ser visto como uma forma de transcender seu estado infantil e alcançar um novo nível de consciência. A morte simbólica da Virgem é necessária para que a transformação aconteça. Assim como Eva ao comer a maçã.

Gabriela Junges

“(…) essas figuras de meninas estão sempre consagradas à morte, uma vez que o seu domínio exclusivo sobre a psique feminina impede o processo de individuação, isto é, a maturação da personalidade.” Carl Jung, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, parágrafo 355


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