Gostaria de tratar sobre a importância do feminino no desenvolvimento do masculino, apontando as imagens utilizadas no desenho Mogli: O Menino Lobo e no livro A Epopéia de Gilgamesh. É necessário esclarecer que o Feminino e o Masculino não dizem respeito aos sexos Homem e Mulher, e sim a funções psíquicas presentes tanto em homens quanto em mulheres. No filme Mogli vemos um menino perdido na floresta, que é encontrado por uma pantera e dado a uma família de lobos para ser criado. O menino cresce na natureza selvagem, se identificando com os animais. Porém, um perigo aparece: os lobos relatam que um tigre, que teme o fogo dos homens, está se aproximando para matar Mogli, para que ele não cresça e se torne um homem detentor de fogo. Os lobos decidem então que a pantera deverá levá-lo à tribo dos homens, para que ele não morra. Mogli se revolta contra essa decisão, se afasta da pantera, é sequestrado por um bando de macacos e levado à presença de seu rei. O Rei Macaco deseja ardentemente o fogo dos homens, e promete a Mogli que, se ele revelasse o segredo do fogo, ele poderia continuar na floresta, mas a pantera aparece e salva Mogli. Mogli continua se rebelando contra a ideia de sair da floresta, mas ao longe ouve uma voz feminina que lhe atiça a curiosidade. Ele vai a procura da voz e vê uma menina, que parece enfeitiça-lo com o canto. Apaixonado, ele abandona a floresta e entra na tribo dos homens. O fogo pode ser entendido como a consciência humana, que nos tira do mundo animal (na medida do possível, pois o animalesco continua em nós). Vemos nessa história dois personagens do mundo instintivo (animal) reagindo de formas diferentes diante do fogo da consciência: o tigre teme o fogo e quer matar o menino, quer matar a vida nova que tenta crescer dentro de nós, ele é um predador da consciência, e está o tempo todo tentando nos tornar inconscientes. O macaco tem inveja dos homens, ele quer o fogo, quer ganhar consciência, mas também impede que a vida nova cresça, pois sua condição é que permaneçamos na floresta do inconsciente. Mas o que realmente quero tratar aqui é sobre o Feminino, o único personagem que pôde fazer Mogli se dirigir à tribo dos homens, que pode fazer o menino crescer e se desenvolver, sair do estado animal, ganhar consciência, virar mortal. Em “A Epopéia de Gilgamesh” encontramos o mesmo motivo. Conta a história sobre o personagem Enkidu, um homem-fera que vivia entre os animais, se alimentava de grama com as gazelas, corria rápido e quebrava as armadilhas que os homens faziam para caçar. Ele era uma potência contrária à cultura humana, e por isso a humanidade começou a vê-lo como um perigo a ser neutralizado. Então enviaram uma mulher até Enkidu, uma serva de Ishtar e do templo do amor. Enkidu aprendeu com ela as “artes do feminino”, e por isso sua parte animal se distanciou dele, seus joelhos fraquejaram quando tentava correr e as feras fugiam dele. Ele obteve o Conhecimento e por isso perdeu sua Força. Ele se curvou diante da mulher e a ouviu, e a mulher o iniciou na cultura dos homens, ofereceu a ele pão, vinho e roupas. É interessante observar como esses dois contos tocam em uma questão essencial para o desenvolvimento de nossa personalidade. O contato com o feminino, a anima, é uma experiência que talvez não seja possível explicar intelectualmente, e por isso a melhor forma de comunicá-la é através de símbolos e mitos, que são mais próximos à natureza dela. Se você for falar do arquétipo da vida, deve falar a partir do arquétipo da vida, e não a partir do campo teórico, que é uma coisa estranha à Ela. Me parece que tanto em Mogli como em Gilgamesh é demonstrado que, para que possamos sair do domínio do inconsciente, para que possamos parar de nos afogar na Grande Mãe e andar sobre nossos próprios pés, há um canto e há uma arte que devemos permitir que nos guie, que devemos confiar. Nosso ego só consegue ver o próximo passo, mas podemos carregar uma lanterna, um fogo, que ilumina o caminho, e talvez esse fogo possa ser encontrado quando pararmos de nos rebelar contra ele.
Gabriela Junges

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